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  Notícia inserida em 27/03/2009 às 23:03
" CASO DE ABAMA - Texto Da Professora Neusa Moreira De Moura "
      (Obs. - este trabalho, apresentado no 1º Consurso Literário "Trindade em Prosa e Verso" pela professora Neusa Moreira de Moura, sob o pseudônimo Lídia Argêntia, foi selecionado para publicação por sua criatividade e originalidade)

CASO DE ABAMA

Professora Neusa Moreira de Moura

“Que droga de vida!” - explodiu em desabafo. E pensar que no dia anterior tinha se sentido o dono do mundo - laureado com a insígnia: “0 Funcionário Padrão". Sim, sentira-se muito bem. Uma espécie de sublimidade, de majestade subira-lhe à cabeça. O olhar de inveja dos colegas, as palavras de apreço do chefe, o sorriso de orgulho da esposa, tudo isso era gratificante.

E agora? Um novo dia, uma nova luta; agora com muito mais garra, tinha que provar ser merecedor de tal consideração. Acordou de madrugada, relutante entre o sono e a consciência do dever a cumprir. Levantou-se chateado, em cima do horário, mas que maçada! Tudo errado.

Decididamente, aquele não era seu dia de sorte. “Onde está o uniforme?" - inquiriu a si próprio. Não o encontrou limpo, passado. Onde já se viu motorista de tal categoria, de tão conceituada empresa, trabalhar de roupa suja? O que iriam pensar? E a mulher, o que andaria ela fazendo que não cuidava de seus deveres?! Na certa, coitada, esquecera¬, devido as comemorações. “Comemoração ou comemorações?" Sempre se confundia com certas similaridades. Não havia opção: tinha que usar roupa suja. Saiu ansiado de casa. Viesse o fiscal almofadinha lhe chamar a atenção... Não queria nem pensar!

Chegou à rodoviária um pouco atrasado. Encostou o ônibus e deu o embarque. As mesmas caras de sempre: feias, sujas, sem brilho, sem vida. Caras comuns do mundo. Por que será que todo passageiro é sem sal? A viagem não era longa, questão de uma hora e meia. Não fosse ter de parar a cada quilometro, bem que se poderia fazer o percurso em menos de quarenta e cinco minutos. Este é o tempo gasto por carros particulares.

Assim que deixou o perímetro urbano, uma senhora de meia idade acenou-¬lhe. Começavam as paradas. Automaticamente, destacou uma passagem já preenchida. “Seis reais". A mulher entregou-lhe apenas cinco reais, objetando não ter mais. Deixou por isso; estava tudo danado mesmo.

Só agora distinguiu-lhe as feições. A mulher era incrivelmente estranha. Enormes pelos cobriam-lhe as laterais da face. Do crânio saiam umas proeminências esquisitas. Sim, chifres. Mulher barbada de chifres. Estremeceu. Um frio fino correu-lhe pela espinha dorsal. Era preciso prosseguir. Mais atrás havia lugar: ordenou-lhe que se sentasse.

Ligou o carro e prosseguiu; mas, que tumulto! Não havia dúvida: o diabo estava com ele. Andavam no mesmo barco. Começava a perder o controle. Alguém acenou-lhe nova parada. Parou bruscamente, arrancando
gritos de susto dos viajantes. Começou a destacar várias passagens, muitas e muitas, quase todo o bloco, numa terrível atrapalhação. ”Só uma, moço!" (o sujeito percebera seu estado). E agora? Estava perdido. Tinha que pagar por todas, gastar naquilo o dinheiro destinado à sobrevivência da família. Levou a mão ao bolso, à procura da nota de cinco recebida pouco antes. Não estava lá. Mas tinha certeza de que a tinha colocado junto às outras.

Deu uma olhadela para trás. A mulher desaparecera. Impossível prosseguir.

Um suor frio escorria-lhe pelo corpo. A camisa estava suja, com o cheiro e o peso do mundo. E se fizesse algum comentário?... Ninguém o compreenderia. Pensariam que estivesse ficando louco, tendo visões.

Uma vontade louca de vomitar. Mal estar completo sacudia-lhe todo o corpo. Mas tinha que continuar - o horário marcado, a reputação - tinha que chegar.

Começou a correr. De início vinte km/h, trinta, quarenta; sessenta; oitenta. É o limite! Olhou pelo retrovisor e eis que, numa moto, uma mulher acompanhava-o a pouca distância. Ela ria, ria e seus chifres e barbas adquiriam proporções gigantescas.

Sentiu-se apavorado. Como fora capaz de brincar, de dizer certos ditados populares: "Com mulher de bigode nem diabo pode". "O diabo de saia é o pior!" advertia a mãe. Deveria ser. Estava sendo perseguido por um diabo duplo...barbado e de saia. Apertou o pé no acelerador na proporção de seu medo: 90 - 100 - 120 -140 km/h. Não via mais à frente; nem dos lados. Os passageiros na beira da estrada eram ignorados; visível apenas o retrovisor. A mulher perseguindo-o com alegria maquiavélica. Na barreira fiscal passou aos 160 km/h. Um pânico geral começou a chegar. Mas ele não podia perceber detalhes; só a moto correndo na mesma velocidade. Estava apavorado: surdo, cego, mudo. Não havia mais domínio. Só a mulher, a moto, o medo...a mulher, a moto, o medo...o medo...o inferno.

Choros, gritos, pavor.

Sem dúvida o inferno. O inferno em carne e osso, tal qual pintado.
 
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