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O DiÁrio De GenuÍno - Parte 3
Rildo Bento de Souza
 

22 de Fevereiro de 2010

 

Como hoje não aconteceu nada de extraordinário, como uma visita ou uma ligação,  e nem fui ao médico – que aliás é meu filho – não tenho muito que escrever, meu diário. Hoje também não estou com saco pra relembrar o passado.

Eu acho que no fundo, caro diário, você é um conservador extremista e católico ortodoxo e, portanto, deve me considerar um monstro. Afinal, eu matei a minha esposa, a Maria.

Ontem mesmo, você deve ter escutado o meu filho sem sentimento afirmar veementemente (como eu gosto dessa palavra) que eu havia matado a mãe dele. Assassinato no Brasil nunca chocou e nem nunca irá chocar (pelo menos os que fazem as leis e as executam). É apenas mais um, todos dizem. E todos também acreditam que morrerão um dia – mais ou menos dia. Só você, meu caro diário, deve se considerar um imortal (pelo menos por alguns séculos).

Então, devido às circunstâncias, não acho que cometi um grave delito; pelo contrário. Minhas explicações e as razões que me levaram a cometer este homicídio, guardo pra mim – acho que nem você, pobre folha de papel, está preparada para recebê-las.

Muitas pessoas são assassinadas todos os dias, e seus algozes têm o respeito de toda a sociedade. Viram pop star (não sei se é assim que escreve, pois sou péssimo em inglês)! Além do mais, um escândalo no Brasil é uma promoção – ouvi isso em algum lugar, mas não me lembro onde.

Pense bem, caro diário, os assassinos são as pessoas mais preparadas para enfrentar o nosso mundo. E são as que se dão melhor na vida. Acabo de ler no jornal que um tal de Ezequiel (nome bíblico para a ironia ficar ainda maior),  matou uma criança, arrastando a mesma em um carro, despedaçando seu corpinho pelas ruas da cidade maravilhosa (para a ironia ser completa). Acho que isso aconteceu em 2007, e agora saiu a sentença do assassino que tem nome de profeta.

A sábia justiça brasileira – a que nada enxerga e que sempre escolhe o pior lado para se posicionar – sentenciou, deste modo, o nosso profeta do século XXI: o Ezequiel irá mudar de nome (eu sugiro qualquer outro profeta bíblico, que tal Arão, Abraão, Daniel, Davi, Jeremias, João Batista, Moisés – bem, nomes não faltam); ele também foi condenado a mudar de Estado, ele receberá uma casa do governo, e ainda há a possibilidade dele mudar para a Suíça (à custa dos nossos impostos, naturalmente); e para completar a sentença, o pobre profeta receberá os cuidados de várias psicólogas (se não forem gostosas, não aceite) de uma ONG, por vários e vários anos.

Viu só meu diário, compensa ser assassino no Brasil!

Justiça brasileira, também sou um assassino, meu nome é Genuíno dos Santos Mota, tenho 59 anos e moro em Trindade, uma pequena (e horrorosa) cidadezinha no interior de Goiás; por favor, quero ser condenado como o Ezequiel, tenho esse direito.

Acho que vou escrever para o Superior Tribunal Federal e exigir a minha condenação. Mas acho que não me condenariam, afinal o meu crime não foi tão bárbaro. A Maria morreu com dignidade! Qualquer coisa, se eu não for condenado a esta pena, prometo, digníssima Justiça brasileira, que no meu próximo assassinato irei caprichar nos requintes de crueldade. Afinal de contas, não há palavra melhor que rime com impunidade.

 
 
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