21 de Fevereiro de 2010
Caro diário, acordei há pouco tempo. Já são três da tarde, e ainda estou meio aéreo. Tenho que me lembrar de nunca pingar mais que cinco gotas de Rivotril diretamente na língua. Mas pelo menos, não tive pesadelos. Então valeu a pena.
O meu filho mais velho – o médico sem sentimento – acabou de me ligar dizendo que vem me visitar, e que precisa ter uma conversa muito séria comigo. Estou muito preocupado porque a junção dessas duas palavras – conversa e séria – numa mesma frase é o prenúncio de uma confusão. Ele que venha, assim posso jogar na cara dele que a sua esposa – a minha nora vagabunda – roubou a minha baixela de prata.
O nome dele é Paulo Otávio (ele prefere só Paulo – Dr. Paulo – disse que não gosta de nome composto; um dia disse a ele que nomes feios era herança de família). Tem 38 anos, tinha apenas 21 quando ele nasceu. Naquela época era outra história, casávamos muito jovens... Ele foi criado com muito amor, até que resolveu ser médico. Ele, desde de criança, era muito frio, calculista, não se emocionava facilmente, ou seria médico ou advogado. Ainda bem que resolveu ser médico, não suportaria conviver com um advogado.
Ele acabou de ir embora. Nossa, que situação desagradável. Estou com muita vergonha de contar o que se passou, mas é a sua função, não é diário? Escutar tudo e guardar segredo.
Quando Paulo Otávio chegou, mal me cumprimentou, se dirigiu diretamente para o escritório, e eu o acompanhei, muito desconfiado e curioso. Sentamos um de frente para o outro, separados por uma mesa belíssima de madeira de lei da década de 40 – dessas que não se fabrica mais hoje em dia. Ele respirou, como tem que ser a introdução dos assuntos desagradáveis, me fuzilou com os olhos e disse:
- Eu sei que o senhor matou a mamãe!
- O que?
- Não precisa fazer essa cara de vítima, eu tenho a absoluta certeza que o senhor matou a mamãe!
Além de não terem sentimentos, e serem criativos para colocar nomes em suas doenças, os médicos sempre têm a absoluta certeza de tudo. São piores que o advogado apenas num quesito: eles possuem a explicação científica, contra a qual não há argumentos.
Bati a mão na mesa enfurecido, me levantei, fiz toda a cena de vítima que me cabia. E ele nem levantou as malditas sobrancelhas.
- A mamãe foi assassinada, enquanto dormia com o senhor. Eu não quero saber os motivos; se é o que o senhor os tem, é claro. Esse segredo vai morrer comigo, não se preocupe.
- Eu não tenho medo de você, seu moleque. Eu não matei a sua mãe!
- Eu sei que o senhor matou!
- Você tá querendo é achar uma explicação pra justificar o fato da Flávia (esse é o nome da vagabunda) ter roubado a baixela de prata que a minha mãe deixou de herança pra mim.
- Não mude assunto!
Ficamos nessa discussão um bom tempo. No final contei pra ele porque matei a mãe dele. Ele ficou pasmo, pela primeira vez eu vi sentimentos brotarem nos seus olhos, depois se levantou e disse:
- Marquei uma consulta para o senhor amanhã. Precisa ver essa próstata. Estou muito preocupado.
- E por acaso essa consulta é com você?
- Claro, achei que o senhor ia ficar mais a vontade.
- Ah, então quer dizer que além de roubar a minha baixela de prata você ainda quer enfiar o dedo no meu **?
Abaixei as calças, a cueca, virei o traseiro para ele e disse:
- Pois bem, se é isso que você quer podemos fazer agora mesmo, não preciso ir lá no consultório.
Ele me olhou calmamente, e com a mesma entonação de uma pediatra explicando para a mãe desesperada que o caso não era grave, disse:
- Primeiro iremos fazer um exame de sangue, se der alguma coisa a gente faz o de toque.
Paulo Otávio virou as costas e foi embora, sem se despedir; assim como chegou.
Depois dessa nossa conversa, só tenho certeza de uma coisa, meu diário: acho que ele nunca mais vem me visitar. |