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O DiÁrio De GenuÍno - Parte 1
Rildo Bento de Souza
 

20 de Fevereiro de 2010

 

            Olá diário, meu nome é Genuíno (não sei por que recebi este nome, sempre imaginei que meu pai devia ter ficado puto da vida com a gravidez da minha mãe); bem, eu não tenho culpa de nada, e disse isso a ele poucos dias antes do seu falecimento. Foi numa bela tarde de algum dia de agosto, ele estava na UTI, tinha apenas cinco minutos para vê-lo, e então resolvi lhe falar do descontentamento que tinha com o meu nome. Lembro-me como se fosse hoje, ele me olhou no fundo dos olhos, apertou a minha mão, e sussurrou:

            - Genuíno foi o grande amor da minha vida!

            Logo depois a enfermeira disse que o meu tempo tinha acabado. Nunca mais voltei para visitá-lo. Imagine só a minha surpresa, justo eu que o tinha como exemplo de masculinidade, se revelou homossexual antes de falecer. Pelo menos ele foi enrustido a vida inteira e ninguém nunca vai saber de nada. Apenas você, meu diário.

Sempre fui contra homem escrever diário. Achava coisa de menina – de menina apaixonada, principalmente – mas revi os meus conceitos depois que fiquei viúvo e os meus filhos resolveram me abandonar. Eles justificam dizendo que possuem as próprias vidas, mas isso não os isenta do abandono!

- Um dia vocês vão envelhecer, e vão se lembrar do que fizeram comigo!

Foi a última coisa que disse antes de ser sedado, e então não me lembro de mais nada. O pior de ter um filho sem sentimento, é ter um filho sem sentimento e médico. Até hoje não sei por que ele me sedou pouco depois do enterro da mãe. Com certeza, na lista dos problemas resolveram de cara eliminar o primeiro item. Ele sabe que lúcido nunca deixaria a vagabunda da esposa dele levar a baixela de prata que minha mãe ganhou no dia do casamento dela, e que era a paixão da Maria, minha esposa.

Bem, o fato é que fiquei só! Sem ter com quem conversar, conversarei com você, meu diário, a quem caberá a inglória missão de receber as minhas memórias (não que eu as tenha, mas sempre achei essa palavra bonita). Acho que devo ter minhas memórias, ainda não fui diagnosticado com caduquice, ou Alzheimer, como preferem os médicos.

Além de não possuírem sentimento, os médicos são muito criativos nos nomes que dão as suas doenças. Nunca gostei de médico (incluindo o meu filho); quando criança – e isso já faz alguns anos – sempre associei a figura do médico ao do padre vestido de preto indo à frente do cortejo fúnebre. Até hoje não entendi o porquê da relação; vá entender cabeça de criança...

Fico eu a jogar conversa fora, desviar o assunto e acabo por não falar nada, como sempre. No mais, tenho apenas 59 anos – talvez seja por isso que meus filhos não me levam a sério quando digo que estou velho; e tenho também muitas histórias para contar. Como quando conheci a Maria, que deixo pra escrever amanhã porque já está na hora do jornal começar e convenhamos escrever a mão é um saco.

O jornal acabou, ainda bem que teve uma notícia boa: o preço da carne abaixou; o de ontem nem isso...

Não sei se eu posso escrever minhas memórias num diário, seria melhor um memorial, tal qual o do Machado de Assis, que de tão chato nunca terminei de ler. Eu acho diário melhor, até porque não deixará de ser um, narrarei os dias só que num passado muito distante.

É, meu diário, temos um longo caminho a percorrer...

Então boa noite, vou tomar os remédios pro coração e deitar. Espero que hoje não tenha pesadelos, como ontem. Se tiver, irei mandar os fantasmas irem à merda. Pensando bem, acho que vou tomar quatro gotinhas milagrosas de Rivotril pra garantir.  Mas primeiro, preciso me lembrar onde foi que eu o guardei.

 
 
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