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Tic-tac
Rildo Bento de Souza
 

Os ponteiros do relógio não andavam...

Tic-Tac!

Tic-Tac!

Onze e meia da noite...

Tic-Tac!

Tic-Tac!

Só escuto o Tic-Tac!

Estou preso ao Tic-Tac!

Sessenta segundos compõe um minuto.

Sessenta minutos compõe uma hora.

Horas compõe o meu dia.

Meu dia não se compõe em horas,

Mas em problemas.

Tic-Tac!

Tic-Tac!

Já é novo dia, mas continuo o mesmo,

Não mudei nas doze badaladas.

Tic-Tac!

Tento dormir e Tic-Tac!

Tento sonhar e Tic-Tac!

Tento acordar e quando acordo,

Ouço o som do Tic-Tac!

Tic-Tac de manhã!

Tic-Tac à tarde!

Tic-Tac à noite!

Nada o acalmava!

E ele vai cumprindo a sua dolorosa missão,

De espalhar pela casa o seu mórbido ruído.

Tic-Tac!

Tic-Tac!

Às vezes penso que estou preso ao Tic-Tac!

Mas ele se renova em outro Tic-Tac!

Tic... Tac!

Tic... ... Tac!

Ele dá sinais de impotência!

Ele dá sinais de cansaço!

Tic...

Ouço tristemente e uma pausa se dá.

Tac...

E as pausas vão se prolongando,

Até o glorioso momento do Tic-Tac acabar!

O relógio parou exatamente à uma hora da manhã.

O Tic-Tac transcendeu o relógio e invadiu a minha cabeça,

Onde nela sua orquestra desarmônica faz o meu martírio!

Agora o Tic-Tac está em mim!

Vou ao banheiro e escuto o Tic-Tac!

Como escutando o Tic-Tac!

As horas não passam!

E agora sem relógio,

O meu desespero aumentava,

Ao som do Tic-Tac!

Meu Tic-Tac!

Meu!

Comprei uma pilha!

Renovou-se!

Revitalizou-se!

O Tic-Tac agora era estridente e potente!

Tic-Tac!

Tic-Tac!

Parecia um trem de ferro de tamanho Tic-Tac!

A orquestra desarmônica,

Desarmonizou a minha cabeça.

O relógio cerebral não acompanhou

O Tic-Tac do relógio material!

Agora o escuto assim:

Tic-Tic-Tac-Tac!

Tic-Tic-Tac-Tac!

Enlouqueci!

Enlouqueci!

Tamanho era o Tic-Tac!

O Tic-Tac e o seu eco!

Durmo escutando o Tic-Tac!

E sonho que sou um relógio.

No Tic-Tac da vida,

Tictacteou assim que o relógio existiria,

E nos controlaria.

Seja no Tic-Tac da vida!

Ou no silêncio da morte!

 

 

30/01/2004

 
 
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