E de repente tudo muda!
O povo sai do anonimato!
Nunca é tão valorizado!
Nos comovemos!
Nosso país vai mudar!
Nosso estado vai mudar!
Nossa cidade vai mudar!
Até que enfim vai mudar!
Porém, nós não tiramos conclusões,
Somos induzidos a elas.
Quanto vale o poder?
Quanto vale?
Vale menos que um pingo de vergonha na cara,
E mais que um pouco de caráter?
Mas o que é um pingo de vergonha na cara,
E um pouco de caráter,
Mediante o poder do povo?
E o povo não fede!
Eles apertam a nossa mão!
Nos abraçam!
Dizem que tudo vai mudar!
Que compensa ter esperança!
E de quatro em quatro anos é uma disputa!
Sou disputado!
Desejado!
Cobiçado!
No meio de uma guerra de palavras nos sentimos perdidos!
As promessas se tornam hábito,
Como comer, ou cagar, ou desviar, ou se corromper.
E nesse emaranhado de sensações a gente vibra,
A gente aplaude!
A gente ainda se agarra àquele último fio de esperança!
Seja naquele santinho com aquele cara rindo!
Naqueles adesivos coloridos!
Naquelas bandeiras a balançarem-se ao vento!
Naqueles carros de som estridentes!
Quanto dinheiro!
Quanto dinheiro meu Deus!
E tudo por causa do poder!
O povo que é induzido a pensar,
Deixa de pensar.
Esquece que é democracia,
Que é maioria,
Que é gente,
E não uma máquina comprável de votos.
O povo se esquece...
Ora, mas se esquecem até do povo.
E de repente tudo fica calmo.
Calado!
Apático!
Logo o povo é varrido pra debaixo do tapete do poder.
E de repente, não mais que de repente,
O povo é tirado do descaso!
É venerado!
É agraciado!
Bem, mas já se passaram quatro anos mesmo.
09/08/2002 |