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BrasÍlia - 2010
Lena Castello Branco Ferreira de Freitas
 
Aproxima-se o aniversário de Brasília que, em 21 de abril de 2010, completará cinqüenta anos. Com defensores entusiastas e maldizentes crônicos, a cidade é, entretanto, uma realidade pujante, fervilhante de vida e de promessas. Onde, meio século atrás, eram a solidão e o ermo, vêem-se prédios, casas, ruas, avenidas, estradas, jardins, lagos e represas, marcas da presença humana que, com a população do entorno, alcança milhões de habitantes.
 
Fecho os olhos e lembro a primeira vez que visitei Brasília. A construção da cidade avançava em ritmo febril. Obras para todo lado, operários, engenheiros, betoneiras roncando, tratores e motoniveladoras rasgando o chão ocre. Pairava no ar a pergunta: Brasília ficará pronta para ser inaugurada em 21 de abril de 1960? 
Havia quem descresse, assim como havia quem ainda lutasse contra a transferência da capital. Invocavam-se as enormes despesas que seriam feitas e iriam onerar o País por muitas gerações. Criticava-se a maneira JK de governar, tudo feito às pressas - “em cima da perna” - ensejando negociatas, desvios de verbas, tráfico de influência, especulação imobiliária e mazelas outras. Em Brasília – previam alguns - os políticos ficariam isolados, a mais de mil quilômetros do eixo dinâmico do Sul-Sudeste, longe das massas urbanas e dos eleitores, sem a fiscalização dos meios de comunicação. Assim distanciados, corria-se o risco de a representação eleitoral abastardar-se e a corrupção agravar-se.
 
Os que defendiam a nova capital pregavam a necessidade de, a partir de Brasília, o país ocupar seus vastos espaços interiores, desbravar o Centro-Oeste e a Amazônia, abrir espaços para a integração de brasileiros que, já então, comprimiam-se na periferia das grandes cidades, em condições sub-humanas de vida. Dizia-se que era chegado o momento de o Brasil deixar a beira-mar e apossar-se do interior, para construir uma civilização de características próprias e potencialidades infinitas. Um tanto ingenuamente, acreditava-se ser benéfico que o centro das decisões nacionais ficasse longe das exigências e pressões das multidões. O isolamento, pensava-se, permitiria aos políticos analisar serenamente temas e fatos, e decidir com sabedoria os assuntos de interesse nacional. 
Passado meio século, o que se poderá considerar verdadeiro e justo, nos argumentos pró e contra a mudança da capital federal para Brasília? Quem estaria – e quem não estaria – com a razão? Até que ponto os raciocínios desenvolvidos e os vaticínios feitos se cumpriram? 
Não há que discutir o quanto Brasília e a transferência da capital beneficiaram as regiões Centro Oeste, Norte e parte do Nordeste. Estradas foram abertas, cidades brotaram do nada, o progresso chegou ao interior. Agricultura e pecuária modernizaram-se; universidades e escolas surgiram, energia elétrica e toda uma rede de comunicações entraram em funcionamento, aproximando distâncias e redesenhando o mapa do país. Não resta dúvida que a imensa dívida contraída com a construção da nova capital – em boa parte causadora da hiper-inflação que nos avassalou - reverteu em riqueza para muitos, embora não para todos.
Quanto ao exercício da política, infelizmente estavam certos os que anteviam Brasília como “ilha da fantasia”, isolada dos anseios e da opinião pública nacional. Em linhas gerais, o rebaixamento do nível da representação nacional desaguou na impune licenciosidade de práticas pessoais e eleitorais condenáveis, quando não criminosas.
 
Muito se tem criticado a elite branca, a velha burguesia de “olhos azuis” (?) que conduziu os destinos do Brasil até recentemente. E quem está mandando, hoje, nos altos escalões da República? Dos arrivistas e sindicalistas que se elegeram com financiamentos de caixa-2, quem se projeta como exemplo e como paradigma para a mocidade? 
Não é à toa que os jovens se mantêm arredios e cumprem o dever de votar literalmente por obrigação: quem são e onde estão os líderes políticos dos nossos dias? Os novos José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Afonso Arinos, San Tiago Dantas e outros de igual quilate? Na política de Goiás, onde encontrar a versão atualizada de José (Juca) Ludovico de Almeida, governador resoluto e tranqüilo, que tomou a dianteira e determinou a desapropriação das terras onde seria construída Brasília? Onde um outro Jerônimo Coimbra Bueno, que fez da mudança da capital sua obsessão e seu objetivo de vida? Onde a versão rediviva de Emival Caiado, que, convicto e apaixonado, liderou o Bloco Parlamentar Mudancista, unindo os contrários – PSD e UDN – e assegurando ao Poder Executivo o apoio do Congresso, sem o que não se faria a mudança da capital, na data fixada em lei que leva seu nome? 
Lamentavelmente, Brasília converteu-se em foco de escândalos. Aproveitando a onda de indignação popular que cresce a cada detalhe escabroso, desafetos da nova capital vêm propor que a cidade deixe de ser capital federal e se transforme em museu a céu aberto, dado que o urbanismo e a arquitetura de vanguarda seriam os únicos méritos que lhe devem ser reconhecidos.

Parece claro que tal proposta não será levada a sério, mas é preciso não deixar que passe em branco o 21 de abril de 2010. Ao estado de Goiás, em cujo território está encravado o Distrito Federal, compete tomar a iniciativa de uma programação que permita não somente a celebração da data histórica, como também a avaliação isenta da importância de Brasília, para a região e para o país.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia, em 02 de fevereiro de 2010)

 
 
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