Para alguns estudiosos do Brasil e dos brasileiros, uma das causas do atraso tupiniquim estaria no culto à retórica, entendida como palavreado oco, de frases sonoras, mas sem substância. Como responsáveis pelo beletrismo e conseqüente ausência de ação, são apontados os “bacharéis” – leia-se: bacharéis em direito – persistentes adeptos de uma oratória vazia e distante da realidade.
Que nós, brasileiros, gostamos de um discurso, não há que negar. Toda entidade social ou cultural tem o seu “orador oficial”, a quem compete, em dias festivos e em outros nem tanto, “usar da palavra” e falar em nome dos companheiros.
E haja falação! Não faz muito tempo, os discursos eram escritos em tirinhas de papel pautado, que o(a) orador(a) levava dobradas no bolso (ou na bolsa). Uma fala de meia hora era considerada razoável, pois havia quem se estendesse por quarenta e cinco minutos, uma hora, duas horas... A ênfase na adjetivação e a entonação eram cuidadosamente ensaiadas, bem como a gesticulação enfática e o olhar iluminado. Ao fim e ao cabo, o discursador assumia o papel de oráculo dos povos e condutor das gentes, sendo-lhe difícil dar por finda a falação.
A tendência atual é limitar o tempo dos oradores; em certos casos, chega-se ao extremo oposto, quando se concedem exíguos minutos para a abordagem de temas extensos e complexos. Mas os bacharéis continuam em alta! Cresce o número de vagas nos cursos de direito, cujo diploma, para muitos, significa uma realização de vida, embora nem sempre leve à aprovação no exame da Ordem dos Advogados.
Somos todos bacharéis, todos nós: sociólogos, antropólogos, geógrafos, historiadores, politicólogos, lingüistas e pedagogos! Bacharéis são, igualmente, economistas e administradores, que empalmaram o comando da administração pública. Trouxeram consigo a mística do planejamento - e, com ela, a elaboração de programas, planos e projetos que passaram a integrar a rotina dos governantes.
Para tais documentos, definiu-se um vocabulário específico, eivado de estrangeirismos; e estabeleceu-se, como regra “democrática”, sua prévia discussão com grupos e lobbies interessados. Tudo, naturalmente, pago pelo contribuinte – ou seja, por nós. E pensar que já pagamos caro – caríssimo! – para eleger nossos representantes no Congresso, a quem, em tese, caberia debater e equacionar os temas de interesse da sociedade brasileira.
Recentemente, ganhou notoriedade o III Programa Nacional de Direitos Humanos, assinado pelo presidente da República em meio às comemorações de fim de ano. A escolha dessa época para fazê-lo soa inadequada: se o próprio Lula confessou que não leu o documento; se a ministra da Casa Civil não se familiarizou com ele – quem de nós, simples mortais, iria deixar de lado as festas natalinas para inteirar-se da versão última do maçudo PNDH III?
Em verdade, o que se fez, de maneira insidiosa, foi incluir, em um programa de governo que tem a chancela do presidente da República, diretrizes e ações inspiradas em convicções ideológicas que a maioria da população rejeita. Dizem os autores do indigitado que mais de quatorze mil pessoas foram ouvidas, em reuniões, encontros e congressos de associações civis, ONGs, sindicatos etc. Conferida a listagem dessas entidades, fica evidente que vozes discordantes não tiveram vez, sendo redundantes as consultas feitas aos bons companheiros e seus comparsas.
Na Velha República, era sempre às vésperas do encerramento dos trabalhos legislativos que se discutia o orçamento para o exercício seguinte. Aproveitava-se o açodamento dos debates para aprovar matérias que nada tinham a ver com receita e despesa: era a “cauda orçamentária”, em que valia tudo, de nomeações de parentes a dotações suspeitas.
Temos hoje uma “cauda programática”: no Programa – que é de Direitos Humanos - foram enxertados assuntos outros, como invasão de propriedades, casamento de homossexuais, aborto e controle dos meios de comunicação. Entretanto, se a estratégia visava a assegurar a tranqüila aceitação de matérias indigestas, o tiro saiu pela culatra: neste começo de 2010, multiplicam-se reações e críticas ao PHDH III, ficando claro que ocupantes dos altos escalões da República criaram, mais uma vez, embaraços para o governo.
Sendo um programa de longo prazo, teria o PNDH III o objetivo de ditar normas para o próximo presidente? Lembremos que, no Brasil, há leis que “pegam” e leis que “não pegam”. O PHDH III não tem força de lei, mas, com a autoridade da sanção presidencial, define ações de longo prazo. Em 2010, findará o segundo mandato de Lula, “o cara”. O futuro presidente (seja ele quem for) aceitará ser dirigido pelos xiitas do PT e seus gurus da esquerda guerrilheira?
(publicado no jornal “Diário da Manhã” de Goiânia em 26 de janeiro de 2009) |